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A Utilidade(?) da Filosofia Ensaio de Marcos Tristão*
Há um tempo, entremeio ao anunciar de uma das modalidades dos Cursos de Filosofia que promovo, um e-mail me chamou bastante atenção por simplesmente conter em seu cerne a “utilidade da Filosofia?”, o que logo converti em questão e assim objeto de análise. Desta maneira passo a explicitar o auferido, não como inferência e sim no intuito de dês-velar o modo e as perspectivas provocadoras de tal com-portamento.
O Utilitarismo, sistema fundamentado por Jeremy Benthan e Stuart Mill, coloca no cerne do mundo a ação humana consistente na busca do prazer individual como auge de realização que, requalificado posteriormente – de acordo com interesses – passou a descrever aquilo que traria alguma serventia ou uso , que fosse proveitoso, vantajoso, enfim, uma coisa que possuísse propriedade ou aptidão para satisfazer as necessidades econômicas do homem. Será a Filosofia esta “coisa”? Vamos lá...
A confusão “organizada” em que vige o Ocidente, assim o é para manter determinados interesses e este mesmo confusionamento deturpa, distorce, torce e requalifica tudo aquilo que em outrora fora criado mediante extrema experimentação: as palavras. Daí decorre que “pragma”, bem como tantos outros termos, não poderia ser diferente. E uma vez “convertido” significa tão somente “prática”, ou seja, ação própria daquele que designa e direciona sua existência às coisas e logo,discernente de sua originariedade, que em sua conjuntura polissêmica designava principalmente as coisas feitas, as ações, os atos, a ação de fazer, a ocupação, a aplicação, o trabalho, voltados ao espírito.
Portanto, a “utilidade” colocada em questão e tão veementemente “usada” pelo Ocidente nos parece derivar dos vocábulos servidão (sujeição, dependência, atitude sem vontade própria) e serventia (qualidade daquilo que serve), condição esta que repousa o ocidental visto que uma vez entremeado por sua gana “utilitarista” dedica, declina, aliena sua existência às coisas e a sua “utilização”. Precisamos esclarecer quem usa e quem ou o quê está sendo usado.
À Filosofia bem como ao filósofo nos cabe apontar “rigorosamente” pelas “imagens” exibidas tudo aquilo que ambos não são, muito embora nos falte muito a percorrer até conseguirmos dizer o que sejam realmente. Como a Filosofia não parece ser uma “coisa”, logo não “serve”, não é “útil”, visto que a mesma não se embasa e nem se fundamenta nos discursos ideológicos tão bem apresentados pelos ditos “filósofos” e seu jogo de palavras. A mesma - a Filosofia - também não “funciona” como subterfúgio para alcançar lucros econômicos, exceto a estes personagens manualescos “especialistas”, que sobrevivem da repetição/reprodução, muito manca por sinal, dos manuais historiográficos da Filosofia; de forma nenhuma “aplica-se” a métodos e doutrinas que pré-tendam a mudar ou salvar o mundo e a humanidade ou mesmo sequer propor a extinção das ditas “classes sociais”, tendo este “filósofo”, lógico, como líder; como também seu movimento não perpassa seres ressentidos, abnegados de si mesmos.
Enfim, nos parece que a Filosofia em seu constante desdobramento holometabólico desconhece totalmente a vicissitude do Humano comum, onde este vê apenas planície, seu praticante (o pensante) enxerga abismos e salta sem asas, alheio a disputas de domínio público, desconhecedor desta ou daquela virtude inventada pelos homens, gorjeando dos humanos de Conhecimento pois, em sua interioridade este itinerante em pleno vôo abissal possui um único saber: o de não saber nada; e uma vez ciente disto, não participa da cultura de rebanho, visto que, na qualidade de pensante é aquele que escolhe exercendo por isso sua autêntica singularidade e como tal traçando seu próprio caminho.
Por fim, este termo “Filosofia” bem como seu derivativo “filósofo”, suspeitamos que não caibam à verborragia do Ocidente. Os Gregos quando o inventaram, assim fizeram no âmago de profunda experiência em busca de aprendizado, formada por isso a partir da sua experiência originária, em pleno átmos – instante – poiétikós – criatrivo – e logo, de vastidão imensurável somente alcançável mediante pleno e puro exercício espiritual, o que torna absolutamente escapável a “significações”, “utilidade”, “prática” ou “serventia”. Estas são modalidades depauperadas próprias do Ocidente, o que faz compreensível a questão acerca da “utilidade” da Filosofia (muito bem exercida pelos “filósofos”, aqueles dos manuais, os “especialistas”).
Afinal, a questão fora pronunciada por um ocidental e como tal este repousa em seus limites, condição esta que jamais lhe possibilitará escutar o som que traz em si a força desta magnânima palavra forjada de maneira totalmente desinteressada pelos Gregos, povo este experimentador autêntico da liberdade já que fizeram do pensamento, Filosofia, e desta, “pragma”, instaurando assim um modo de viver e inaugurando desta maneira, mesmo sem querer ou para nada não, aquilo que se pode nominar de Estética da Existência.
* Marcos Tristão é historiador, cientista político e filósofo ma.tristao@uol.com.br
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